Com paridade, diesel dobra de preço em cinco anos e chega a R$ 6,63

12/05/2022

Cálculo de economista da FGV mostra que inflação no período foi de 32,88%, enquanto valor do combustivel subiu 121,73%

Em pouco mais de cinco anos, o preço do litro do diesel comum subiu cerca de 121,73%, segundo dados da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
Em novembro de 2016, um mês após a Petrobras adotar o preço de paridade de importação (PPI) para o combustível, o valor médio para o consumidor era de R$ 2,993. Agora, segundo o último levantamento de preços da ANP, chegou a R$ 6,630, um aumento de R$ 3,637.
Um cálculo do professor e economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Mauro Rochlin aponta que, neste mesmo período, a inflação foi de 32,88%. Ou seja, ainda que corrigido, o preço do diesel teve um crescimento de 68%.
Segundo o economista, se o valor do combustível fosse reajustado somente pela inflação, ele custaria hoje, em média, R$ 3,97 nos postos.
Mesmo com os efeitos da paridade para os brasileiros, para Rochlin, a adoção da política é importante para a posição da Petrobras diante do mercado e de futuros investimentos.
Neste caso, de acordo com o economista, algumas opções para frear o impacto no bolso do consumidor seriam o subsídio direto por parte do governo ou a utilização dos dividendos da própria empresa para quitar essa diferença.
“Eu acredito que a melhor política é deixar o mercado funcionar e subsidiar programas para a população de baixa renda. O melhor é o Estado mirar em quem de fato precisa, como subsídio para o gás de cozinha, por exemplo”, defende.
No entanto, outra questão apontada pelo economista é uma distorção que uma possível medida de subsídio do diesel poderia gerar no mercado. “Subsidiando o diesel, você está indiretamente desestimulando um mercado de energia limpa, por exemplo. E esse tipo de benefício de forma indiscriminada acaba favorecendo quem não precisa”, afirma.
O PPI para o diesel foi adotado pela Petrobras em outubro de 2016. À época, a empresa divulgou que “a decisão do comitê executivo levou em conta o crescente volume de importações, o que reduz a participação da Petrobras, e também a sazonalidade do mercado mundial de petróleo.”
De acordo com o comunicado da empresa em 2016, um aumento das importações vinha sendo observado, especialmente no caso do diesel, em que a entrada de produtos já correspondia por 14% da demanda do país. No caso da gasolina, as importações haviam crescido 28% ao mês, entre março e setembro de 2016.
Dados do Relatório de produção e vendas da Petrobras, referente ao primeiro trimestre de 2022, mostra que a empresa importou 10,4% de todo o volume de diesel que vendeu para o mercado interno.
Segundo a Petrobras, a empresa vendeu 716 mil barris por dia (Mbpd) do combustível para o mercado interno, enquanto a importação foi de 75 Mbpd.
Em tendência de alta ao longo dos últimos anos, o preço do diesel causa impacto de forma direta e indireta no custo de grande parte dos produtos comercializados no mercado interno. Foi o que explicou à CNN o economista da FGV Joelson Sampaio.
Para Sampaio, o diesel, combustível usado principalmente por caminhoneiros, pode ser considerado um dos “pilares da economia brasileira”, em função da dependência do país no modal rodoviário e, consequentemente, do transporte terrestre.
Além da paridade, ele aponta a alta inflação como responsável pela escalada no preço do combustível.
“Podemos afirmar que grande parte dos produtos brasileiros são distribuídos por rodovias, é o nosso principal modal interno. E com o preço do diesel cada vez mais alto, o valor do frete fica cada vez mais caro, logicamente encarecendo os produtos para o consumidor final, os brasileiros”, ressaltou.
À CNN, o presidente da Associação Nacional de Transporte do Brasil (ANTB), José Roberto, defendeu que a atual política de precificação utilizada pela Petrobras precisa ser revista. De acordo com ele, a categoria já alerta há anos sobre a necessidade de mudanças para outro formato econômico.
“Enquanto o preço do combustível brasileiro estiver alinhado à paridade internacional, não vamos mudar esse cenário. A categoria está alertando há anos. Esse cenário não é novidade para os caminhoneiros, estamos percebendo esses aumentos consecutivos há muito tempo. Os reajustes são constantes e a paridade precisa ser revista de forma imediata”, argumentou o presidente da ANTB.
Em maio de 2018, uma greve de caminhoneiros durou dez dias e paralisou serviços como fornecimento de combustíveis e distribuição de alimentos e insumos médicos.
A categoria iniciou a paralisação para exigir uma redução nos preços do óleo diesel, que subiram mais de 50% em 12 meses. À época, a pressão fez com que o governo federal subsidiasse uma redução de R$ 0,46 no litro do diesel, por 60 dias.
Na avaliação de Rodrigo Leão, pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), o PPI se mostrou ineficiente para o que foi proposto inicialmente, como o aumento da competitividade do mercado de petróleo e evitar o desabastecimento.
“Essa medida não é adotada de maneira generalizada, há um conjunto de outras providências que são adotadas sobre preço em outros países a depender de variáveis, como câmbio, capacidade de refino, de como conduzir a política de preços. Em relação ao PPI, quem adota são países e empresas que têm uma estrutura de mercado completamente diferente do mercado brasileiro”, afirma Leão.
O especialista defende uma discussão sobre a política de paridade em si, já que, para ele, é necessário entender a complexidade da cadeia de petróleo e da própria Petrobras.
“Acho que tem muita tentativa de simplificar um debate que é muito complexo, têm muitas nuances. A indústria de petróleo é muito diversificada. Outras medidas podem ser adotadas, pesquisas internacionais mostram isso, o próprio governo Temer, em 2018, fez uma articulação durante meses para lidar com a paralisação dos caminhoneiros”, pontua.
A CNN procurou a Petrobrás para falar sobre a política de paridade do combustível e aguarda retorno.
Resultados da Petrobras
Na semana passada, a Petrobras divulgou os resultados do primeiro trimestre de 2022, que mostraram um lucro líquido de R$ 44,5 bilhões. Segundo a estatal, o bom resultado reflete a melhor eficiência operacional durante a extração de petróleo.
“Este resultado financeiro deve-se ao fato de termos agora uma Petrobras saneada, que reduziu os encargos com pagamento de dívida, investe com responsabilidade e opera com eficiência. Tudo isso gera desenvolvimento econômico em toda a cadeia produtiva, gerando emprego, renda e arrecadação de tributos para o país”, destaca o presidente da Petrobras, José Mauro Coelho
“Neste trimestre, pagamos para União, estados e municípios em tributos uma vez e meia o valor do nosso lucro líquido. A Petrobras está distribuindo os frutos de sua geração de valor para a população brasileira”, concluiu.

 

Elis Barreto e Lucas Janoneda - CNN


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