Condições sugerem ano de alta nos combustíveis

13/01/2021
Fonte: Valor Econômico
André Ramalho e Gabriela Ruddy — Do Rio
Concorrentes acusam Petrobras de segurar reajuste dos derivados de petróleo
O ano de 2021 promete pressionar para cima os preços dos combustíveis no Brasil, diante da expectativa de recuperação da cotação internacional do petróleo. O barril do tipo Brent acumula alta de 9% no ano, mas concorrentes da Petrobras acusam a companhia de segurar os preços dos derivados. Segundo consultorias e analistas consultados pelo Valor, a empresa tem operado abaixo da paridade internacional neste início de ano.
Na sexta-feira, a Associação Brasileira de Importadores de Combustíveis (Abicom) enviou ofício ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) acusando a estatal de praticar “preços predatórios”. De acordo com a associação, a defasagem do litro da gasolina é da ordem de R$ 0,40 em relação à paridade internacional, enquanto a do diesel é de R$ 0,30.
O presidente da Abicom, Sergio Araujo, afirma que a estatal tem praticado preços abaixo da paridade sistematicamente desde meados de 2020 e que a situação levanta dúvidas sobre uma possível interferência do governo na estatal. “Concordamos que pode haver uma diferença do [cálculo do PPI] entre os agentes, mas não nessa faixa atual. A manutenção desta conduta está, outra vez, afastando os investimentos, como foi visto no início dos anos 2000”, afirmou.
Questionamentos sobre a autonomia da Petrobras refletem um histórico de pressões de governos sobre os reajustes da empresa. A consultoria Tendências acredita que a demanda global por petróleo dará sinais de recuperação em 2021 e, com isso, pressionará para cima os preços dos derivados. A previsão é que o litro da gasolina para o consumidor final aumentará 9,6% neste ano - uma alta de 0,47% na inflação, medida pelo IPCA. Já o litro do diesel deve subir 12% (0,02% na inflação).
Se confirmado, o aumento dos preços reverterá o cenário de 2020. Segundo a empresa de pesquisa de mercado Triad Research, o consumidor pagou, em média, R$ 4,432 pelo litro da gasolina nos postos, em 2020, queda de 1,6% ante 2019. Já para o diesel S10 a baixa foi de 3,2%, vendido na bomba a R$ 3,627 em 2020. Para efeitos de comparação, o Brent acumulou uma queda de 20,6% no ano passado.
Não há um consenso no mercado, porém, sobre os cálculos que sustentam a comparação dos preços da Petrobras com as referências internacionais. O assunto é objeto frequente de guerras de narrativas. A Abicom, por exemplo, toma como base os preços de referência da S&P Global Platts - que considera as despesas para internalização dos combustíveis até o porto, mais os custos com as taxas portuárias, armazenagem e de frete até o ponto de entrega. Já a Petrobras alega que o PPI não é um valor absoluto entre os agentes.
Além da Abicom, outras consultorias e analistas sugerem que a Petrobras tem mantido seus preços com uma defasagem em relação à paridade internacional. A Datagro estima que, para a gasolina, essa diferença hoje é de cerca de 20%. “Geralmente, na entressafra, o preço do etanol sobe e a competitividade fica comprometida. O não repasse do preço da Petrobras reforça essa perda de competividade”, afirma o presidente da consultoria, Plínio Nastari.
A Ativa Investimentos também calcula que há espaço para alta de até 20% a curto prazo no preço gasolina. O economista-chefe da companhia, Étore Sanchez, acredita que a estatal fará um aumento gradual na sua tabela de preços. “Geralmente a Petrobras aguarda um período de acomodação até fazer essa reposição”, explica.
Já o Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) estima que a defasagem é de 8,6% para a gasolina e 3,5% para o diesel. “Mas não quer dizer que ela perca dinheiro, ela deixa de ganhar dinheiro” comenta o diretor do CBIE, Adriano Pires.

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